Setenta anos de poeira e fúria: Glauber Rocha continua falando com quem tem coragem de ouvir
Photo: Bijay chaurasia, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons
Tem filme que a gente assiste e esquece. E tem filme que a gente assiste e passa a enxergar o próprio país de outro jeito. Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) é desse segundo tipo. Setenta anos depois do início do Cinema Novo, em pleno século do streaming e da atenção de três segundos, Glauber Rocha continua sendo uma bofetada cinematográfica — e é exatamente por isso que a nova geração está redescobrindo ele.
A estética da fome que virou retrato do Brasil
O Cinema Novo nasceu da ousadia: fazer cinema sem dinheiro, sem estúdio, sem licenças — e com muita urgência. Câmera na mão, atores populares, sertão como cenário e como personagem. Glauber resumiu tudo naquela frase que virou manifesto: "uma câmera na mão e uma ideia na cabeça".
Mas o que sustenta o movimento não é só a técnica. É a ética. O Cinema Novo se recusou a mostrar um Brasil de cartão-postal e colocou na tela a seca, a fome, a violência estrutural e o misticismo que atravessam o país real. Quando Corisco surge em preto e branco cortado, ou quando Manuel e Rosa caminham por aquela terra rachada, a gente não está vendo só cinema: estamos vendo um raio-X.
E aqui mora o incômodo. Porque setenta anos depois, esse raio-X continua parecido com o Brasil das manchetes de hoje. A violência do campo, a desigualdade, o fanatismo religioso, a política como messianismo — tudo aquilo que Glauber filmou com fúria ainda tem endereço atual. Não é à toa que os vídeos-ensaio sobre ele explodem nas redes sempre que o país esquenta.
Por que os jovens estão redescobrindo Glauber
A gente tem visto nas sessões do cineclube uma coisa curiosa: cada vez mais gente jovem chegando com Glauber descoberto no YouTube, no TikTok, nas resenhas de cine YouTuber. E o motivo faz sentido. Vivemos um momento de saturação estética — tudo muito liso, muito iluminado, muito embrulhado em gelo seco. Contra isso, o Cinema Novo oferece o oposto: imagem suja, som imperfeito, intensidade bruta.
É cinema que não pede licença. E numa geração que redescobriu o valor do debate político e da cultura regional, o sertão de Glauber soa menos como passado e mais como profecia.
Roteiro de 5 filmes para entrar no Cinema Novo
Se você quer entender o movimento sem se afogar, segue a ordem que recomendamos pra quem chega agora na fila:
- Rio, 40 Graus (Nelson Pereira dos Santos, 1955) — o ponto de partida. Um domingo na vida de moradores do Rio, do vendedor de amendoim ao menino da Zona Norte. Humanismo puro.
- O Pagador de Promessas (Anselmo Duarte, 1962) — a ponte entre o popular e o erudito, Palma de Ouro em Cannes. Zé do Buró carregando a cruz pela Lapa é uma das imagens mais fortes do cinema brasileiro.
- Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber Rocha, 1964) — o coração do movimento. Misticismo, banditismo e revolução no sertão, com trilha de Villa-Lobos e coragem estética de sobra.
- Vidas Secas (Nelson Pereira dos Santos, 1963) — a adaptação impecável de Graciliano Ramos. Seca, fome e a desumanização de uma família retirante. Menos grito, mais silêncio — e talvez por isso doa mais.
- Terra em Transe (Glauber Rocha, 1967) — o mergulho profundo. Política, paixão e alucinação na fictícia Eldorado. É o filme mais difícil da lista, e o mais recompensador.
O cinema como grito que não envelhece
Glauber dizia que, diante da fome, o cineasta da nossa América não estava preparado para a melancolia — e sim para a violência de sua imagem. Setenta anos depois, a frase ainda arde. O Cinema Novo não é peça de museu: é convite. Um convite a olhar o Brasil sem filtro, a discutir em roda, a discordar em voz alta.
E é isso que a gente faz aqui na Fila K: sentar, projetar e conversar. Porque filme bom, como Glauber ensinou, não termina quando a luz acende — começa aí.