Pastel na mão esquerda, ingresso na direita: o que o Brasil comia antes da pipoca virar dona da sessão
Photo: Wilfredor, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons
Quem cresceu frequentando cinema de rua ou de bairro sabe que a sessão começava antes da primeira cena. Começava na fila, na moeda suando no bolso, na negociação interna sobre onde investir as últimas notas: mais um pastel ou mais uma bala? A pipoca, que hoje é quase obrigatória — mediana, salgada ou doce, servida no balde gigante do shopping —, nem sempre reinou sozinha. Houve um tempo em que o lanche de cinema no Brasil tinha sotaque de feira, de botequim, de bodega da esquina.
O lanche como parte do roteiro
No cineclube da Fila K, a gente defende uma tese simples: o que a gente come na sessão faz parte do filme. Não é distração, é acompanhamento. O balde de pipoca uniforme do multiplex criou uma ilusão de que sempre foi assim, mas a memória das sessões brasileiras conta outra história.
Nas cidades do interior, o cineteatro — aquele que servia de palco para shows na sexta e sessão de cinema no domingo — tinha ao redor dele uma pequena economia do prazer: o vendedor de amendoim torrado na hora, o saco de pipoca enrolado em papel jornal, a bala de café embrulhada em celofane, o refresco de maracujá no copo descartável fino que amolecia antes do intervalo.
E nas capitais, principalmente no Rio e em São Paulo, o lanche podia ser mais ambicioso. O pastel de feira era o campeão: quente, crocante, comido com cuidado para não molhar a calça antes das luzes se apagarem. Alguns frequentadores mais elegantes faziam um lanche pré-sessão no bar em frente — um tira-gosto, um caldo de cana, um sanduíche de pernil — e entravam na sala de barriga cheia, prontos para duas horas de tela.
Bala de café, paçoquinha e a economia do acabou
Vale resgatar o detalhe que os mais novos talvez não acreditem: o lanche de cinema era barato o suficiente para ser comprado com troco. A bala de café, aquele doce duro e amargo que durava a sessão inteira se você tivesse disciplina, era a escolha do estrategista. A paçoquinha, o goiabinha, o bala sete capas — cada um tinha seu público fiel.
E havia a arte de esticar o lanche. A pipoca do saco de papel tinha que durar do primeiro ato ao desfecho, o que exigia um controle de porções que qualquer nutricionista respeitaria. Quem comia rápido demais sofria o castigo de assistir ao segundo filme (porque muitas sessões eram duplas, lembra?) em jejum absoluto.
A comida na tela conversando com a da plateia
Aqui no Fila K, a gente gosta de fechar o ciclo: e se a gente escolher filmes em que a comida na tela tem a ver com a comida na mão? A lista é curta, mas deliciosa. Abaixo, uma curadoria para a próxima sessão do seu cineclube caseiro — de preferência com pastel encomendado da feira mais próxima.
Toda Mulher (1946) e as comédias chiclete — Não é exagero dizer que as comédias brasileiras dos anos 40 e 50, com suas festas, bailes e jantares de gala, pediam um lanche à altura. Assistir a um baile na tela comendo bala de café é uma experiência de contraste que a gente recomenda.
O Auto da Compadecida (2000, ou a versão de 1969) — A comida nordestina aparece com tanta força na história de João Grilo e Chicó que a gente sugere um lanche de feira para acompanhar: algo simples, quente, com pimenta à parte.
Rio, 40 Graus (1955) — Nelson Pereira dos Santos filma o Rio no calor, com vendedores ambulantes e o cheiro de comida de rua atravessando a narrativa. O pastel na mão da plateia parece quase uma continuação do que acontece na tela.
Vidas Secas (1963) — Aqui a regra é outra. A secura da terra, a fome, a missão da família de Fabiano. Se você escolher este filme para o seu cineclube, o lanche vira um ato de reflexão: o que a gente come quando come muito? Vale a discussão depois da sessão, com a bala de café ainda na boca.
Central do Brasil (1998) — O polvilho, o queijo, o pão simples que Dena e Josué comem no caminho. Um filme que mostra a comida como gesto de afeto, e que pede um lanche caseiro, sem embalagem de plástico, sem balde, sem fila de caixa.
O lanche como ato de resistência
A gente não é contra a pipoca. A gente é contra a padronização do prazer. O lanche de cinema brasileiro — pastel, bala, amendoim, goiabinha — era uma forma de o público se apropriar da sessão, de transformar um produto cultural em experiência pessoal. Não era só o filme que você levava para casa; era o gosto da noite, o cheiro da sala, a sensação de que aquele momento era seu.
Então, na próxima sessão do seu cineclube, tente um experimento: troque o balde de pipoca por um saco de papel com bala de café e um pastel de feira encomendado. Veja se a conversa depois do filme não fica mais quente, mais brasileira, mais sua. A gente aposta que fica.