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Rir junto também é cinema de qualidade: cinco comédias nacionais clássicas pra salvar sua próxima sessão

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Rir junto também é cinema de qualidade: cinco comédias nacionais clássicas pra salvar sua próxima sessão

Photo: Advertisement of the Biograph Company (New York, N.Y.) contracted for publication in 1909 with The Moving Picture World (New York, N.Y.), Public domain, via Wikimedia Commons

Vamos falar de um vício do cineclube brasileiro: a seriedade. A programação típica é sempre o mesmo cardápio — Cinema Novo, drama francês, noir melancólico. Tudo legítimo, tudo importante. Mas quando a última pessoa da fila sai da sessão, raramente está sorrindo.

Aqui na Fila K a gente acha isso um desperdício. A risada coletiva é uma das experiências mais raras e mais valiosas que uma sala escura pode oferecer. E o Brasil produziu comédia clássica de sobra — só que ela ficou confinada à TV e às reprises de tarde. Hora de devolvê-la ao telão.

Por que a comédia nacional ficou fora da mesa

Parte da culpa é do prestígio. O cinema brasileiro sempre foi levado a sério quando era sério — e a comédia acabou tratada como subproduto, coisa de artista de TV em hora vagabunda. Injustiça danada: os grandes comediantes deste país eram artistas completos, com ritmo, timing e um olhar antropológico sobre o brasileiro que nenhum drama conseguiu registrar com tanta precisão.

A curadoria: cinco pra rir alto

1. O Auto da Compadecida (2000), de Guel Arraes — tecnicamente uma minissérie para o cinema, mas que funciona como a maior comédia popular brasileira já filmada. Ariano Suassuna, Matheus Nachtergaele, um Major que dá medo e uma Santa que regateia almas. Rir e pensar ao mesmo tempo, sem esforço.

2. As Cangaceiras Eróticas (1974), de Roberto Palmari — ok, essa é para a sessão mais descontraída da turma, mas representa a explosão da Boca do Lixo e do gênero que o Brasil fez como ninguém: a pornochanchada. Irreverência pura, história de uma época que a filmografia oficial prefere esquecer.

3. Se Eu Fosse Você (anos 70 em diante, mas comece pelo original de 1972, de Antônio Carlos da Fontoura) — a troca de corpos entre marido e mulher rendeu uma franquia inteira, mas a primeira versão tem um humor de observação que envelheceu melhor que muito drama da época.

4. O Grande Mentecapto (1989), de Alberto Salceda — outra adaptação de Suassuna, menos conhecida que o Auto, com um pícaro protagonista que atravessa o sertão enganando todo mundo. Comédia de picaresca nordestina, com letra e ritmo de cordel.

5. A Grande Família (1973), de Fernando De Barros — antes da novela, o clássico dos estúdios que transformou a família brasileira em palco de confusões eternas. O ponto de partida perfeito para entender de onde vem todo o humor de situação nacional.

O argumento final: rir é debater também

Depois da sessão, a conversa sobre uma comédia brasileira clássica rende tanto quanto sobre qualquer manifesto do Cinema Novo — só que mais leve, mais íntima e mais reveladora. O que essas comédias dizem sobre família, religião, jeitinho e sertão é tão denso quanto qualquer drama.

Então na próxima reunião do seu cineclube, resista ao impulso de programar mais uma angústia de duas horas. Coloque o Auto no telão, faça a pipoca doce, e observe a cara da galera quando a sala inteira cai na gargalhada no mesmo segundo.

Isso também é cinema de qualidade. Talvez o mais brasileiro de todos.

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