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Luz baixa, pipoca na mão: cinco noirs dos anos 50 pra discutir até tarde com a turma

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Luz baixa, pipoca na mão: cinco noirs dos anos 50 pra discutir até tarde com a turma

Photo: Johannes Østby, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons

Sabe quando a sessão acaba e ninguém levanta do sofá? Quando todo mundo fica ali, ainda processando a última cena, e alguém solta 'mas espera, então ela sabia desde o começo?' — é aí que o cineclube de verdade acontece.

Depois do sucesso do nosso guia de clássicos italianos, a Fila K apaga a luz do quarto, acende a do abajur e atravessa o Atlântico. Desta vez: film noir americano, aqueles filmes de detetive de sobretudo, femme fatale e cidade que não dorme. Cinco títulos, cada um com uma pergunta de debate pronta pra soltar na roda depois dos créditos.

Dica de casa: o kit noir

Antes da lista, o ritual:

1. A Malhação (1941)

A pergunta de debate: se todo mundo no filme é culpado de alguma coisa, quem é o verdadeiro vilão — o indivíduo ou o sistema que o cerca?

O filme que praticamente inventou o noir. John Huston adapta Dashiell Hammett e entrega um elenco de personagens todos mais sujos que o anterior. Sydney Greenstreet, Peter Lorre, Humphrey Bogart — e um falco de chumbo que vale uma fortuna e nenhuma verdade.

2. Pacto de Sangue (1944)

A pergunta de debate: a narrativa em flashback muda a forma como você julga os personagens? Você confiaria neles se a história fosse contada em ordem cronológica?

Billy Wilder e Raymond Chandler escrevendo roteiro juntos — já deveria ser proibido de tão bom. Fred MacMurray é o vendedor de apólices, Barbara Stanwyck é a mulher da perna de tornoz que virou lenda do cinema. O flashback aqui não é recurso, é confissão.

3. A Dama de Shangai (1947)

A pergunta de debate: Orson Welles filmou tudo com uma ironia quase debochada. O noir pode ser engraçado, ou isso quebra o gênero?

Rita Hayworth jogando fora os cabelos loiros, o aquário do fim que já vale o filme, e Welles como o irlandês Michael O'Hara levando um calvário por causa de uma mulher que ele mesmo descreve como 'peixe que come o próprio parceiro'. A Sony Pictures Classic botou o filme no Brasil com esse título, e a gente nunca superou.

4. A Vida íntima de um Assassino (1950)

A pergunta de debate: o filme sugere que a violência vem de dentro, não das circunstâncias. Isso deixa o noir mais assustador ou mais honesto?

Menos conhecido no Brasil, e é uma pena. Robert Montgomery dirige e atua como um bandido que tenta largar a vida do crime. O detalhe técnico: boa parte do filme é filmada em câmera subjetiva, do ponto de vista do protagonista. Você vira o criminoso por 90 minutos. Chato de esquecer.

5. O Beijo Mortal (1955)

A pergunta de debate: o roteirista que se disfarça de vítima é uma metáfora do próprio cinema? Quem conta a história controla quem parece inocente?

Robert Aldrich adapta Mickey Spillane com toda a violência e o exagero que o material pede. Ralph Meeker como Mike Hammer, um detetive tão interesseiro que quase vira crítica ao próprio gênero. O final é dos mais perturbadores da década.

Como render a conversa

O truque do cineclube de sofá é não deixar a conversa morrer no 'achei bom'. Depois da sessão, solte a pergunta de debate e espere. Alguém vai defender o personagem, alguém vai detonar, alguém vai lembrar de um filme brasileiro parecido (e aí a conversa já valeu a noite inteira).

E se a turma quiser esticar: faça a sessão dupla de verdade. Comece com Pacto de Sangue e termine com O Beijo Mortal — dez anos de evolução do noir em uma noite. A luz do abajur pode ficar acesa até tarde.

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