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Esperar é um gênero: a estética da fila no cinema brasileiro e seis filmes para esperar melhor

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Esperar é um gênero: a estética da fila no cinema brasileiro e seis filmes para esperar melhor

Photo: Rafael Delazari from Belo Horizonte, Brazil, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons

A gente não escolheu o nome Fila K por acaso. Quem já parou na porta de um cinema de rua nos anos 80 e 90 sabe: a fila era o primeiro ato do filme. Ali se conversava, se discutia o placar do jogo, se pedia emprestado o dinheiro da meia entrada. A fila era cinema antes do cinema.

E talvez por isso o cinema brasileiro tenha entendido, melhor que qualquer outro, que esperar é uma cena. Não um intervalo entre cenas — a cena em si.

O ônibus como cenário nacional

Pense em Central do Brasil (1998). O que é aquele filme senão uma fila gigante de dois mil quilômetros? Dora (Fernanda Montes) escreve cartas na estação, e cada pessoa que senta na cadeira dela traz uma espera diferente: a espera por notícia, por perdão, por alguém que nunca vai voltar. Walter Salles filmou o sertão como quem filma um saguão de rodoviária infinito. A estrada é a fila.

Antes disso, Nelson Pereira dos Santos já tinha feito a espera virar estrutura em Vidas Secas (1963). A família de Fabiano não tem pra onde ir — e é justamente essa imobilidade que vira narrativa. O filme não avança; ele adia. E o adiamento dói.

O consulório e o balcão

Mas a espera brasileira não é só estrada. É balcão, é senha, é 'o doutor já vai te atender'. Em O Bandido da Luz Vermelha (1968), Sganzerla colocou a sua Sandra emBobby na periferia de São Paulo esperando — por amor, por dinheiro, por qualquer coisa que tire ela do tédio. O desespero da espera virou linguagem: o cinema novo marginal filmava a paralisia com câmera na mão, como quem não aguenta mais ficar parado.

E em Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), Marcelo Gomes devolve a espera ao sertão, agora em preto e branco, agora num alemão perdido com um projector de 16mm. João (Peter Ketnath) espera por uma cura que não vem, e o sertanejo que compra aspirina espera por uma vida que também não vem. O filme inteiro é uma fila de dois homens que não têm pra onde ir. E é lindo.

Quando a espera vira estética

Tem quem diga que o brasileiro espera porque não tem escolha. Certo. Mas o cinema fez dessa falta de escolha uma forma de arte. A espera no cinema brasileiro:

Não por acaso, o melhor filme brasileiro sobre a fila recente é Estou me guardando para quando o carnaval chegar (2019), de Marcelo Gomes, sobre os tanques de água secos em Tacaimbó. Um documentário sobre espera pura: esperando chuva, esperando caminhão-pipa, esperando o governo. O cinema como registro da fila.

Curadoria da Fila K: seis filmes para esperar melhor

Se a fila é inevitável, que ela renda conversa. Nossa seleção pra você transformar espera em sessão:

  1. Central do Brasil (1998) — a fila como estrada, a estrada como fila. Fernanda Montes no auge.
  2. Vidas Secas (1963) — a espera que não termina, filmada com secura e ternura.
  3. O Bandido da Luz Vermelha (1968) — a espera tédio que explode em cinema.
  4. Cinema, Aspirinas e Urubus (2005) — a espera como encontro de dois estranhos.
  5. O Auto da Compadecida (2000, versão de Guel Arraes) — esperando o julgamento, com humor de arrepio.
  6. Estou me guardando para quando o carnaval chegar (2019) — a fila real, documentada sem pieguice.

A fila anda — e o cinema registra

A gente sabe que a fila anda devagar. Mas talvez seja justamente aí que mora a graça: o cinema brasileiro não tem pressa porque o país não tem pressa — ou não pode ter. E nessa lentidão forçada, a gente inventou uma forma de filmar que nenhum outro lugar tem.

Da próxima vez que você estiver na fila — do banco, do posto, do cinema — olhe pro lado. Provavelmente tem uma cena de filme acontecendo ali. E se quiser, chama a gente: a fila K sempre tem espaço pra mais um.

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